quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crise

         Bom, para realizar a minha postagem preciso dizer onde é o meu ponto de partida. Assim, se definições simples conseguissem abarcar toda a complexidade existencial que o tema comporta, me autodenominaria de cristã em constante crise.
         Grosso modo, isso quer dizer que creio em Jesus Cristo como meu único e suficiente salvador e utilizo a Bíblia Sagrada para balizar a minha vida. Entretanto, isso também quer dizer que frequentemente me vejo em conflito com os dizeres daquilo que eu entendo por ser a Palavra de Deus.
         Assim, sempre me pego desconcertada quando me é exigido algum posicionamento principalmente no que concerne a famigerada moral cristã. Isso se deve principalmente por entender que é incabível uma transposição didática, prescritiva e literal da Bíblia, mas que são nessas escrituras que devo buscar insumo para me relacionar com as pessoas.
         "E agora José?"
         Bom, o fato é que entre uma crise e outra, fui a busca de literatura cristã e deparei-me com diversas concepções teológicas, algumas  predominantemente fundamentalistas, em que a essência da fé cristã restringe-se à preceitos morais; outras que de tão abstratas não conseguia relacionar  com o que lia nas sagradas escrituras; e outras que me ajudaram enormemente a redimensionar a minha vida.
         Dentre essas que me foram de extrema importância, destaco a produção dos teólogos Ed René Kivitz, Ariovaldo Ramos e Ricardo Gondim. Assim, segue aqui na sequência, um texto do Ed René, neste texto o teólogo fala acerca de religião e politica, achei interessante e resolvi compartilhar.
E assim sigo a vida em conflito, superação do conflito e um novo conflito, mas como disse o professor Carlos Miranda em aula: é pelo conflito que se aprende.
14 Setembro de 2013

A mistura entre religião e política é nitroglicerina pura. Quem mexe na coisa com displicência ou de maneira inadequada corre riscos de ver a mistura explodir causando danos não raras vezes irreparáveis. Pois essa nitroglicerina entrou de vez, e pela porta dos fundos, diga-se de passagem, no cenário eleitoral da cidade de São Paulo. O noticiário informa que José Serra, candidato do PSDB, recebeu o apoio da Igreja Mundial do Poder de Deus, do apóstolo Valdemiro Santiago. A Igreja Universal do Reino de Deus, com ligações estreitas com o PRB, apóia seu candidato, Celso Russomano. O mesmo fazem as Igrejas Assembleia de Deus (Ministério Santo Amaro) e a Igreja Renascer em Cristo. As igrejas Sara a Nossa Terra, setores dos carismáticos católicos e segmentos dos fiéis dos padres Marcelo Rossi e Fábio de Mello apóiam o candidato do PMDB, Gabriel Chalita. Notícias de bastidores do mundo gospel divulgadas também pela imprensa paulistana revelam que a coordenação inter-religiosa da campanha de Fernando Haddad teria alinhavado acordo para apresentar o candidato do PT em estande na próxima edição da ExpoCristã, evento evangélico que promove outra mistura letal: religião e negócios. Os apoios dos religiosos não ocupam apenas as páginas dos jornais e as mídias virtuais. Estão presentes também nos púlpitos das igrejas, notadamente aquelas caracterizadas por lideranças de pendor autoritário – não admitem questionamento e muito menos contestação – no modelo clericalista tipo “a igreja é minha”. Pastores, bispos e apóstolos “abençoam” publicamente seus respectivos candidatos, com direito a orações, discursos e defesas em nome da fé e de Deus. As fronteiras entre templos e praças públicas, púlpitos e palanques, fiéis e eleitorado, guias espirituais e cabos eleitorais foram absolutamente devas sadas. As comunidades de fé são transformadas em currais eleitorais e o antigo “voto de cabresto” foi substituído por algo mais sofisticado, o “voto de cajado”, numa referência ao abuso da autoridade pastoral sobre seus rebanhos. Não faltam vozes condenando tais alianças entre igrejas e candidatos e partidos políticos. Mas, por que razão a prática é considerada inadmissível? O que existe de errado em uma igreja apoiar a eleição de um candidato com quem poderá contar caso ele seja realmente eleito? Por que razão  o chamado “voto de cajado”, em que as lideranças religiosas manipulam seus rebanhos para a adesão massiva a um candidato é considerada inaceitável? Não basta dizer que “isso não é ético”. É preciso explicar porque. O voto é um direito e uma responsabilidade do cidadão. Sindicatos, agremiações culturais, ONGs, clubes esportivos, associações da sociedade civil e empresas – embora se organizem para apoiar seus representantes – não votam. Igrejas também não votam. Não existe “voto coletivo”. Quem vota é o cidadão. “Os deveres cívicos não devem ser encarados como propriedade privada, mas como uma responsabilidade pública”. Esta é a opinião de Michael Sandel, autor do best seller Justiça, baseado em curso homônimo que atualmente ocupa a lista dos mais populares da Universidade de Harvard. “Terceirizar os deveres cívicos significa aviltá-los e tratá-los da maneira errada”, conclui. A noção de deveres cívicos como responsabilidade pública, defendida por Sandel, afeta o conceito de democracia republicana, que pode ser compreendida pelo menos de duas maneiras. A primeira é derivada do próprio entendimento da expressão: república, res pública, significa “a coisa pública”. A democracia, por sua vez, pode ser compreendida, mesmo com o risco do simplismo, o poder que em ana do povo, é exercido pelo povo, para o bem do povo. Em síntese, democracia republicana é o exercício de administrar a coisa pública de modo a atender os interesses coletivos. A segunda maneira de compreender a democracia está voltada para tensão das forças entre os diferentes grupos representativos da sociedade. Todos os segmentos da sociedade têm direito e liberdade de associação, expressão e mobilização para a busca dos seus próprios interesses. Em termos mais simples ainda, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, e assim a brasa fica espalhada e igualmente dividida para todas as sardinhas. Na prática, isso é cruel. Primeiro, porque  quem não se expressa, não se associa e não se mobiliza, acaba ficando sem brasa para a sua sardinha. Mas também e principalmente porque aqueles que têm mais condições de expressão, associação e mobilização ficam com porções significativas de brasa em suas sardinhas. Quem detém os poderes econômicos, políticos e de comunicação de massa leva vantagem. Em outras palavras, como todos sabemos, sobra para os pobres, que, aliás, nem mesmo sardinhas têm. O melhor exercício da democracia é mesmo aquele em que cada cidadão está imbuído da busca dos interesses coletivos, independentemente de seus próprios interesses ou de seus grupos respectivos. Em termos ideais, os detentores do poder – em todas as instâncias – deveriam exercê-lo para o bem comum e a promoção da justiça na sociedade. Se a res é pública, todos os cidadãos deveriam dela se beneficiar. A expressão, associação e mobilização na defesa dos interesses particulares de pessoas ou grupos é uma traição aos ideais da democracia republicana. Quando a igreja se associa e se mobiliza ao redor de candidatos que atendem aos seus interesses, está fazendo o jogo totalitário: governar do meu jeito, de acordo com os meus interesses, aos quais todos devem se ajustar, sob pena de serem banidos do jogo.  O cristão, é, sim, chamado a viver dia a dia a prática de uma fé, que, por se manifestar sempre a favor da justiça, invariavelmente trará, como resultado de sua ação transformadora, conseqüências políticas. Respeitando as individualidades e rechaçando veementemente os maniqueísmos e as manipulações, a igreja é lugar privilegiado para a promoção de  uma nova consciência. Boa parte dos movimentos de transformação social surgiu de profundos compromissos espirituais e motivações religiosas. Desmond Tutu ensinou que “não há nada mais político do que dizer que religião e política não se misturam”. Quem se omite do processo político favorece o status quo e fica refém do poder dominante. Vale a reflexão. Até porque cristãos jamais deveriam se esquecer de que inegavelmente são também seguidores de um prisioneiro político. Quando a igreja extrapola seu papel social e assume a disposição de “voto coletivo”, rouba do cidadão sua prerrogativa de liberdade de consciência e opção ideológica e político partidária, bem como seu direito inalienável de votar livremente. Nenhum apoio institucional é vazio de interesses particulares. A igreja que apóia um candidato está explicitando sua expectativa de retribuição e recompensa. Em outras palavras, está colocando à venda aquilo que deveria estar fora da lógica de mercado, a saber, o voto e o mandato público. Essa perversão da democracia representativa, no entanto, é mais antiga que a Grécia. Todos os poderosos a praticam. Vergonhosa e infelizmente, não faltam líderes religiosos que participam do jogo com os mesmos critérios de injustiça e espírito totalitário dos outros atores, comprometidos apenas consigo mesmos e os grupos que sustentam seus privilégios. A comunidade da fé que deveria exercer na sociedade um papel profético e diaconal acaba sendo levada por lideranças pseudo espirituais, que abusam de sua autoridade, se vendem por trinta moedas, e vendem o justo por preço menor do que o dos passarinhos, como já acusou o profeta hebreu. Para esses líderes oportunistas e inescrupulosos, a res é pública, mas a cosa é nostra – com todas as implicações do trocadilho

        


15 comentários:

  1. Digo que entrei nesse blog com um pé atrás, falar sobre religião não é um dos meus assuntos favoritos, pois é difícil a discussão, tem pessoas que seguem uma determina crença e não refletem sobre ela, tudo que a igreja faz está certo, tudo o que prega é válido e as pessoas tem que ser 100% Jesus. Entretanto, surpreendi-me com os temas que vocês trouxeram e a forma que estão dialogando sobre fé, nem exaltado, nem submisso, polido.
    Li a reportagem sobre religião e política e o que esta defende eu também assino embaixo, acredito que os líderes religiosos não deveriam interferir nas nossas intenções de voto, já que, como diz a reportagem "Nenhum apoio institucional é vazio de interesses particulares. A igreja que apóia um candidato está explicitando sua expectativa de retribuição e recompensa.". Maquiavel já dizia em "O Príncipe", que a Religião era importante para o Estado, manipulava e acalmava o povo. Bom, defendo que uma coisa não é só ruim e também não é só boa, tudo tem seus dois lados, portanto, o que temos que fazer é refletir sobre o que queremos seguir ...e saber que ficar em cima do muro também é um caminho (acho que é o meu no momento). Gostei do post.

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    1. Pois é Lidiany, eu também havia ficado com o pé atrás quando decidimos fazer um blog sobre esse tema. Mas foi justamente as diferentes visões que tem no próprio grupo que nos ajudou a trazer uma discussão mais variada.

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  2. Acredito que estar em crise seja talvez um possível sinônimo de estar viva, em movimento, pensando, repensando, construindo e desconstruindo. Me identifico com seu post por estar vai e volta em crise, mas uma certeza também tenho como a sua, de que creio em Jesus Cristo como Salvador e na Bíblia como base para minha fé. Continuo me identificando com este post por ler os livros e baixar as mensagens do Ed Rene Kivitz que me desconstroem como pessoa e ao mesmo tempo me fazem admirar cada vez mais a beleza do Evangelho.
    Gostei do post e do texto que vc selecionou dele. Bjs!

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  3. Que grata surpresa encontrar um blog que fale sobre religião de uma forma ampla e sem preconceitos, as fitinhas do Bomfim e uma postagem sobre um Pastor e um Ateu no mesmo espaço já é um indicio do objetivo do Blog.
    Acredito que crer em Deus ou em uma força superior, ou crer que o Ser Humano é o único responsável pela sua vida, ´pode ser uma forma que cada um acha de se sentir bem consigo mesmo e de ser feliz. Se esta crença nos faz melhores então acho totalmente valida.

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    1. Marli, muito obrigada! Era exatamente essa a nossa intenção: "um blog que fale sobre religião de uma forma ampla e sem preconceito", buscando o diálogo com as mais diversas opiniões.

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  4. Concordo com o que a Lídia comentou, a crise e o conflito nos fazem crescer e a busca por respostas e questionamentos deveria ser constante em todas as áreas de nossas vidas. Já assisti mensagens do Ed René e dá para entender porque ele é considerado um dos maiores teólogos brasileiros atuais, muito bom o texto que vocês escolheu para apresentar aqui!

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    1. Você também assiste as mensagens dele, Isadora? Que legal!
      Estou aberta à referência de outros teólogos também,viu? haahah
      Obrigada ;)

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  5. A complexidade de viver seguindo os passos de Jesus é tamanha que não há como fugir das crises, eu acredito inclusive que as crises ajudam a reavivar a fé.Ótimo texto, também gosto muito da forma como Ed René enxerga a vida cristã.

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    1. E eu sou imensamente grata a você por me ajudar em todas elas!

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  6. Tenho a minha fé e acredito muito em Deus. No entanto, sempre fico me perguntando sobre que é a verdade? Pois muitas religiões pregam verdades absolutas e fazem dos seus fiéis marionetes, principalmente quando resolvem misturar política e religião. Por isso, acredito que religião e política não devam se misturar, mas nunca tinha lido um texto escrito por um teólogo falando sobre o assunto. Gostei muito do texto pela forma como apresentou o assunto.

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    1. Silvana,
      Eu defendo a laicidade do Estado, embora ache impossível a desvinculação da religião com a política, no sentido de que as pessoas utilizam dos princípios de suas religiões para fazer escolhas em todos os sentidos, inclusive políticas.
      Entretanto, repudio qualquer ação que lance mão da manipulação através da fé.

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  7. Fé X Razão, a dualidade que coloca muita coisa em jogo. Sou cristã e sei claramente porque fiz essa decisão. Creio na Biblia e tenho essa como o livro da minha vida. E Jesus, o meu maior Mestre. Frequento assiduamente uma igreja evangélica, mas tenho que dizer, nem tudo que é dito por tantas pessoas que por ali passam eu engulo com facilidade. Muita gente se aproveita da fé dos outros para se promover ou alcançar seus próprios interesses e isso eu ABOMINO. Muitas vezes tive de dizer, não, eu não concordo com isso, principalmente quando o assunto é tocante à política. Por isso, temos que "raciocinar" acerca do que move a nossa fé, o que norteia a nossa crença, e o que nos constitui como indíviduo. Por isso, para mim fé e razão andam sempre juntinhas e conciliadas.

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  8. Religião e política é uma discussão interessante! A religião é eminentemente política, como demonstra a história as instituições religiosas sempre foram ativamente presentes na forma como a sociedade se organiza. Eu já acreditei que a religião seria uma expressão diferente das instituições religiosas, que exploravam os fiéis, mas hoje eu percebo que não da pra separar religião e Igreja, ou seja, fé e política, ou pelo menos não até então. É possível que nós humanos consigamos desenvolver uma nova forma de relação religiosa, mas por enquanto todas são políticas e influenciam diretamente na organização da vida das pessoas. Claro que isso não seria um problema se fosse uma escolha de vida e as pessoas não fossem educadas sempre com um direcionamento determinado, mas não é isso que acontece, pelo que vejo.
    Enfim, gostei do texto! E ele traz também uma outra reflexão interessante, de como o sistema de votação é falho. Não só as religiões mas diversas empresas e outros grupos e companhias de bastante influência econômica e política influenciam e direcionam as eleições, e os cidadãos acabam sendo apenas peões disputáveis nessa lógica. Todo o processo democrático merece uma nova reflexão, um re-pensar, uma reformulação.

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  9. Nossa o post e o blog inteiro está muito legal! Tratar de religião é no mínimo polêmico e gera muita discussão. Acredito que a discussão gerada é boa quando o start é dado por textos como este sem preconceito ou disseminações e que tentar abordar o tema de diversas maneiras!

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