Oi gente, Boa tarde! Hoje vou falar sobre a minha trajetória de fé pessoal, e um pouco também da minha opinião sobre a influência da religião nas nossas práticas sociais e políticas.
Como boa brasileira, fui batizada e criada na fé Católica, inclusive tendo feito catequese e etc. Minha avó materna sempre foi uma pessoa muito católica, porém bem sossegada com as escolhas de todos na família. Em minha casa, tirando a minha vó, ninguém nunca frequentou uma religião assiduamente, e isso nunca foi um problema.
Quando eu estava lá com os meus 12 anos, decidi romper com a igreja. Eu não achava mais nada daquilo divertido (aliás, achava que ir na missa era algo bem chato, quando não tinha nada de especial), e o mais importante, é que eu não via sentido em praticar a fé desse jeito. Nunca deixei de acreditar que houvesse algo metafísico, até pela minha concepção de busca de um sentido pra vida, mas essa concepção religiosa e esse Deus do Catolicismo definitivamente não eram os meus.
Comecei a ter curiosidade de conhecer várias outras religiões, e as que mais faziam sentido pra mim eram as que tinham questionamentos interessantes sobre o que nos cerca, e menos dogmas e códigos de conduta que não respeitam os direitos fundamentais das pessoas, apenas mantendo a regra de ouro (não faça aos outros o que não gostaria que te fizessem).
Lá pros 15 anos, comecei a ter contato com o Espiritismo Kardecista. Comecei a frequentar um centro assiduamente, e foi uma experiência muito interessante. Vi sentido em muitos sentimentos e emoções que eu sempre tinha, e pra mim o Espiritismo foi uma resposta coerente pra algumas questões filosóficas que eu me colocava. Porém acabei me afastando quando me mudei para Brasília, já com 17 anos. Tentei encontrar um Centro lá, mas por ter acabado de mudar, não saber chegar nos lugares, e conhecer poucas pessoas, não consegui encontrar um lugar legal para continuar participando de sessões como eu fazia antes.
Esse afastamento foi interessante, porque pude ter mais pensamentos sobre algumas práticas que eu questionava no Espiritismo, principalmente no que toca à "cara" das entidades que fazem parte das falanges de ajudantes espirituais. Sempre havia muitos médicos, enfermeiros, doutores, etc. e penso que essa personificação sobre o que são espíritos evoluídos é um pouco problemática, pois reflete muito mais o que valorizamos no mundo terreno como seres que detêm o conhecimento e a bondade, sendo que isso não se liga e nunca se ligará a algum título ou profissão que tenhamos em vida, e sim a uma elevação espiritual.
Nesse caminho, mais por intermédio do meu pai e do meu tio, já tendo voltado para Campinas, conheci a Umbanda e o Candomblé. A cosmogonia dessas últimas três religiões é semelhante em vários aspectos, mas a ligação das duas últimas com as forças da natureza, além da enorme importância das mesmas na constituição do nosso país foram elementos essenciais para meu interesse por elas. Além de eu ter respostas pra tudo que não pode ser respondido racionalmente, é maravilhoso poder professar uma fé que conta a história do meu povo, e que precisa suar pra sobreviver nesse país.
Nisso entro com a crítica à hipocrisia que vivemos hoje no Brasil. O maior país católico do mundo, com ascensão estratosférica do pentecostalismo também, perde a linha ao misturar fé pessoal e interferência na vida pública e privada das pessoas. Machismo, racismo, homo/bi/trans/lesbofobia são justificados por discursos de ódio que se ancoram de maneira falaciosa na Bíblia, justamente a que prega o Amor Universal. Não dá pra ficarmos calados com relação a essa interferência da moral cristã na política, pois isso só gera violência contra os setores oprimidos da sociedade. Tudo o que se refere a práticas morais, deve ser praticado por quem concorda com elas, não com todo mundo. Eu mesma tenho um código de conduta que não serve para os outros, e não posso fazer com que os outros pratiquem igualzinho a mim, pois só diz respeito ao meu âmbito pessoal, e das pessoas que compartilham esse código comigo.
Não pudemos esse ano discutir sobre o direito ao aborto (que segundo dados da OMS, são 1 milhão por ano NO BRASIL, com mortes em seguida), estamos em retrocesso no que toca ao casamento e direito de adoção por pessoas homossexuais, pessoas trans* são execradas todo o tempo, apenas por exigirem o direito de reconhecimento de sua identidade de gênero, e a incoerência rola mais solta ainda com relação a temas como prostituição, descriminalização das drogas, sexualidade, e um sem fim de coisas.
Não dá mais pra aguentar essa interferência nas nossas vidas, em nome de um suposto Deus, que não é o Deus de Amor, definitivamente, e eu tenho certeza que ele não concorda com essa violência desmedida em seu nome. É necessário que tomemos as rédeas dessas discussões, principalmente quem vai trabalhar com educação. É necessário dizer chega, e acredito que isso deve vir também das amigas e colegas que são religiosas, e que não concordam com essas práticas de certas igrejas e figuras religiosas, que queimam todo mundo que quer praticar sua fé professando sobretudo o amor. Faço esse chamado a não ficarmos em cima do muro, pois quando nos calamos, a única voz que aparece é a dos discursos de ódio, infelizmente.
A religião cumpre um papel muito importante pra vida pessoal, pois é inerente à humanidade a dúvida sobre o sentido da vida, e ancorar-se em algo que nos faz bem, se isso faz sentido pra gente, só causa uma melhora em todos os aspectos. Além disso as religiões cumprem um papel indissociável na construção da história e da cultura das sociedades, principalmente no Brasil, calcado em tantas, e que tem essa pluralidade linda, que é diversa, mas que ainda gera conflitos.
Termino aqui com músicas que expressam bem o que sinto com relação a esse contato com o Algo Maior, e deixo também meu chamado a necessidade de pensarmos em professar nossa fé de maneira livre, mas sem interferir na fé, não fé, enfim, na vida do próximo sem que ele queira.
Um Beijo.
Clara Nunes - A Deusa dos Orixás
Gilberto Gil - Se eu quiser falar com Deus
Clara Nunes - Canto das Três Raças
Gilberto Gil - Andar com Fé
Maria Bethânia - Carta de Amor